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RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE: (A PSICOLOGIA NOS LIMITES DO SAGRADO)

  • 9 de set. de 2019
  • 7 min de leitura

Yggdrasil a árvore cósmica dos Nórdicos

Atualmente observamos um cenário social onde as igrejas vem ganhando cada vez mais destaque nas mídias, internet e até mesmo no senado com a chamada “bancada evangélica”. Porém, até que ponto tais manifestações religiosas são efetivamente autênticas? O que é uma experiência religiosa autêntica?

Restrinjo-me aqui – ou não – a apontar a concepção psicológica de religião e religiosidade para que possamos compreender até que ponto tais manifestações têm mais a ver com política do que com uma experiência autêntica.

A princípio o que se convencionou chamar de religião é uma confissão religiosa institucionalizada em torno de um dogma que se exterioriza na fé de um grupo de pessoas, formando com isso uma comunidade. Assim, temos as chamadas paróquias católicas, ou então as igrejas neo pentecostais. As primeiras possuem uma coesão muito maior, haja vista, que seu dogma não é questionado criando divisões.Já as igrejas neo pentecostais por outro lado, dão uma liberdade maior ao fiel possibilitando que haja interpretações diversas do livro sagrado.

Já a religiosidade é um sentimento, uma devoção baseada em uma experiência de grande tonalidade afetiva, ou o que Jung (1978) citando Rudolf Otto nomeou de numinosidade. Um efeito dinâmico não causado por ato arbitrário. Jung vai mais longe ao compreender, através de seus estudos comparados das religiões, que a religião é na verdade a manifestação deste numinoso em sua dimensão originária. Ele utiliza o radical “religio” para descrever uma consideração e observação acuradas de certas potências nomeadas como espíritos, demônios, entidades etc.

Deste modo, a religião está enraizada em seu princípio a certas experiências pessoais com as imagens que apareciam espontaneamente as pessoas como, por exemplo, as visões dos oráculos em Delfos na Grécia, ou dos santos católicos como Hildegarda Von Bingen ou São João da Cruz . Estes – assim como os Xamãs – detinham a função social de orientar as pessoas no sentido de possibilitar às mesmas, a condução moral de suas atitudes dentro de um significado comunitário maior.

A partir do estudo das religiões comparadas podemos observar certas imagens arquetípicas[1] que se repetem nos mitos e nas histórias orais como a árvore por exemplo. Na mitologia judaica e cristã a árvore ficava no centro do paraíso com uma serpente enrolada. Na mitologia nórdica temos Yggdrasil o eixo do mundo, a árvore cósmica em midgard (outra versão do paraíso). A terra dos deuses era circundada por um rio em que corria uma serpente. Na Índia temos a serpente Kundalini enrolada no Lingam que simboliza a energia fundamental, a potência divina. Em todos esses mitos o início é marcado pelo símbolo do círculo (serpente enrolada) e a união entre masculino e feminino (serpente e árvore). No mito judaico de Sofia, esta era a consorte feminina de Deus En-sof unida a este no Ensof-aur tendo sido separada por haver se esquecido de sua origem, sofrendo assim uma queda que gerou todo o desdobramento da árvore da vida, a Cabala.

Adão e Eva sendo expulsos do paraíso

Cabala: A árvore da Vida Judaica.

Tal arquétipo simboliza justamente esse re-ligare, como se todos nós carregássemos a intuição de uma natureza originária, uma personalidade intrínseca, um estado primordial o qual todos iremos retornar. Por isso que o círculo é o símbolo da eternidade, pois não tem começo e nem fim sendo essa a experiência de “já ter experimentado” a condição de eternidade no início, por isso a ligação é um re-ligare, ou ligar novamente. Assim, Kundalini ou Sofia deve subir novamente pelos Chakras ou Sefíras até atingir este estado novamente. A partir disso é possível notar que os mitos representam o desenrolar das imagens primordiais da alma, nosso solo humano de onde enraizamos, ou inconsciente coletivo. Estes mitos revelam o arquétipo da transcendência, ou seja, uma experiência que nos carrega e gera uma abertura para um sentido de eternidade e atemporalidade.

Jung se volta para os símbolos naturais e revela que estes últimos são manifestações espontâneas do psiquismo, que criam e estruturam as religiões, mas que não dependem destas mesmas confissões para se manifestarem. Uma pessoa, por exemplo, pode ter fé hoje e amanhã deixar de crer, pode sentir-se em êxtase religioso em lugares extremamente comuns como o ônibus, a praça ou o recanto de seu quarto.

Isso se dá, pois os mitos ou essas imagens têm a função – quando a personalidade entra em contato com elas – de provocar no indivíduo um estado inusitado o qual Jung chamou de experiência imediata. Um estado o qual o individuo é carregado por uma força que o fascina e o carrega eclipsando totalmente sua vontade. Isso é perceptível nos estados de psicose, esquizofrenias ou nos cultos evangélicos e giras de umbanda e demais religiões.

Porém, isso ainda não significa um processo de re-ligação, pois ainda não foi psicologicamente refletido. É apenas um estado de possessão que pode ocorrer de diversas formas dependendo do tipo de experiência a qual nos abrimos. Uma energia sexual (Pomba Gira), uma energia de coragem (Caboclo), uma energia de sentido e paz (Jesus Cristo), uma energia de cuidado universal (Maria ou Mamãe Oxum), dentre outras. Karen Armstrong (2011) vai chamar esse processo de Êxtasys que é uma das etapas do contato com as imagens carregadas de númen.

O êxtase religioso não tem sentido algum se não for experimentado em um continente de proteção oferecido sempre por um símbolo. No caso do cristianismo o símbolo da cruz, na umbanda o símbolo do círculo na gira etc. Um símbolo é a melhor expressão para algo desconhecido. Assim a interpretação de uma cruz como amor divino é semiótica. Porém ela passa a ser simbólica quando põe a cruz além de todas as explicações possíveis considerando-a incompreensível por ter vários significados para várias pessoas, portando da ordem do subjetivo (SHARP, 1991).

Jung (2013, p. 483), vai inovar dizendo que a partir do momento em que o indivíduo se volta para o inconsciente, encontra-se com o desconhecido gerando a possibilidade de tais conteúdos significarem algo além do que se apresentam. Desta feita para ele “Toda expressão psicológica é um símbolo se pressupormos que declara ou significa algo mais e algo diferente dela própria, e que escapa ao nosso conhecimento atual”. Sempre um “como se”.

Para conseguir entrar neste processo, vários autores como Jung, Karen Armstrong, Mircea Elliade dentre outros, irão atentar para que a pessoa tenha religio e pistis. Pistis é uma palavra grega que pode ser traduzida por crença ou harmonia, a segunda opção é mais coerente, pois o importante não é crer na imagem (este crer muitas vezes é confundido com um sentimentalismo cego), mas ter lealdade para com as mesmas em confluência com nossas experiências subjetivas, estar harmonizado, em um compromisso com a própria alma. Assim, estar em um processo de atenção cuidadosa (religio) com o inconsciente (sonhos, devaneios, desejos, etc), mas também ser leal (Pistis) com relação às experiências provocadas pelas mesmas em nossa personalidade é fundamental para a vivência de um processo religioso autêntico.

Para que tais imagens sejam integradas a personalidade é preciso um processo de votar-se-a-si, onde tais conceitos da história pessoal de cada um (sexualidade, cuidado, afeto, sentido etc) serão expressos em um continente de proteção e aceitação incondicional, onde absolutamente tudo será aceito com uma atenção cuidadosa (religio), inclusive os julgamentos sociais. Este trabalho, dentro da psicologia é análogo ao processo de meditação onde toda imagem deve ser aceita sem julgamento em um estado de atenção plena (Budismo). Na psicoterapia chamamos de Circum ambular.

Até aqui o leitor deve estar se perguntando até que ponto falo de psicologia ou religião. De fato foi proposital, pois Jung vai inovar na área psicológica na mesma medida em que Kant inova dentro da filosofia quando distingue as noções de categorias de entendimento do mundo (lógica causal) e categorias de experiência moral. Ele (Kant) vai dizer que a moral não está sujeita as noções de causa e efeito (mundo, sociedade) sendo uma atribuição subjetiva, uma categoria eminentemente humana de justificação da liberdade. Assim ele interioriza noções como alma, subjetividade, moral e religiosidade.

Jung entende que é a partir da ideia de alma que os símbolos podem ser reavivados em um novo processo religioso, pois a noção de símbolo foi historicamente interiorizada, passou a ser entendido como uma manifestação espontânea do psiquismo e por isso sujeito a subjetividade e relação com o próprio inconsciente. Logo, um processo religioso independe de religião e tem mais a ver com uma experiência de si. Isso se torna mais notório quando observamos que a psicologia ganhou o estatuto de senhora do autoconhecimento a partir da metáfora da profundidade (Psicologias Profundas).

Em vários textos Jung vai dizer que existem pessoas que encontraram seu estatuto de verdade dentro dos dogmas de uma confissão, porém existem aquelas pessoas as quais não encontraram isso no mundo. Para estas últimas Jung diz que a experiência religiosa é com a própria interioridade, elas precisam criar seu próprio caminho entre as pedras. Daí a necessidade da psicologia. Porém, ao mesmo tempo, o psiquismo é o alfa e ômega de todo e qualquer processo religioso, pois é a partir da alma que o indivíduo experimenta o mundo.

Assim, para a psicologia não importam as questões metafísicas da natureza verossímil de Deus ou dos dogmas que as pessoas dizem acreditar, quando o que está em jogo é o autoconhecimento. Para o psicólogo o que importa é saber até que ponto a confissão (dogma) ajuda a pessoa a exteriorizar sua religiosidade, ou esta última contribui para a vivência autêntica de sua religião. Ou até mais importante de tudo! Até que ponto podemos conseguir possibilitar que a pessoa tenha a experiência religiosa consigo mesma, ajudando a desvelar o seu Self (Si-mesmo) e conseguindo suportar seu sofrimento dando um sentido a própria existência.

“Para compreender as coisas religiosas acho que não há, no presente, outro caminho a não ser o da psicologia; daí meu empenho de dissolver as formas de pensar historicamente petrificadas e transformá-las em concepções da experiência imediata”.

Carl Jung – Psicologia e Religião

REFERÊNCIAS

ARMSTRONG, Karen. Em Defesa de Deus. São Paulo. Companhia das Letras. 2011.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Religião. Petrópolis. Vozes. 1978.

_______________. Tipos Psicológicos. Petrópolis. Vozes. 2013.

SAMUELS, Andrew; SHORTER, Bani; PLAUT, Alfred. Dicionário Crítico de Análise Junguiana. Rio de Janeiro. Imago. 1988.

[1] “A teoria dos arquétipos, de Jung, desenvolveu-se em três estágios. Em 1912 ele escreveu sobre imagens primordiais que reconhecia na vida inconsciente de seus pacientes, como também em sua própria auto-análise. Essas imagens eram semelhantes a motivos repetidos em toda parte e por toda a história, porém seus aspectos principais eram sua numinosidade, inconsciência e autonomia” (SAMUELS, SHORTER & PLAUT, 1988).


 
 
 

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